Enquanto as academias de ginástica prometem resultados de capa de
revista e as estatísticas de obesidade no planeta só crescem, a ciência
tenta entender por que tanta gente malha, malha e não emagrece. Uma
hipótese que tem recebido atenção dos especialistas é que talvez essas
pessoas façam exercícios fáceis demais. Diversos estudos nos últimos
anos sugerem que economizar na duração do exercício e apostar na
intensidade pode ser mais eficiente do que o “devagar e sempre”
recomendado pelos órgãos de saúde.
Entre as atividades físicas mais indicadas pelos médicos estão a
caminhada, a corrida, a natação e a pedalada, classificadas como
aeróbicas, por aumentar o uso de oxigênio na produção de energia. O que
normalmente se diz é que, para emagrecer, é preciso fazer esses
exercícios por mais de meia hora, pois só depois de uns 20 minutos o
corpo passaria a usar a gordura como principal combustível. Mas essa
convenção vem sendo contestada. O pesquisador Luiz Carlos Carnevali Jr.,
que acaba de lançar o livro Exercício, emagrecimento e intensidade do
treinamento, diz que essa é uma meia verdade. “Para usar mais gordura
durante o exercício, é preciso um esforço prolongado”, diz ele. “Mas, se
o esforço for suficientemente intenso, a gordura será usada do mesmo
jeito, depois do exercício.” Carnevali sustenta que a prática frequente
de esforço físico intenso produz alterações metabólicas que explicam
essa transformação.

SEM PARAR
Terezinha de Oliveira mostra, numa academia de São Paulo, os exercícios
que a fizeram perder 13 quilos em dez semanas. Durante 30 minutos, ela
intercalava exercícios aeróbicos, como a pedalada, com musculação e
ginástica sem intervalos. "Era bem intenso", diz
Mesmo sem se debruçar sobre as explicações moleculares, um estudo
publicado em 2008 na revista do Colégio Americano de Medicina do Esporte
conseguiu demonstrar que a intensidade do exercício pode superar a
duração em matéria de queima de gordura. Divididas aleatoriamente em
três grupos, mulheres com obesidade abdominal (circunferência acima de
80 centímetros) fizeram caminhada ou corrida ao longo de 16 semanas. O
primeiro grupo se exercitou cinco vezes por semana, com intensidade
moderada, em sessões de aproximadamente uma hora. O segundo grupo se
exercitou intensamente três vezes por semana, em sessões mais curtas,
mas alcançando o mesmo gasto calórico do primeiro grupo (400 calorias)
durante as sessões. O terceiro grupo não fez nada. No final, as mulheres
que fizeram exercícios intensos tinham perdido muito mais gordura
abdominal do que as que fizeram exercícios moderados pelo dobro do tempo
(leia o quadro abaixo). A classificação de intenso ou moderado foi dada
pela percepção de esforço das participantes no estudo. As mulheres do
exercício moderado afirmavam estar ligeiramente cansadas no final da
sessão, enquanto as do grupo da corrida puxada diziam estar cansadas ou
muito cansadas. Se estivessem usando medidores de frequência cardíaca, o
primeiro grupo estaria com batimentos entre 65% e 75% da capacidade
máxima e o segundo mostraria batimentos acima de 85% da capacidade
máxima.
Quando a intensidade é maior, a duração é inevitavelmente menor, pois
os recursos orgânicos disponíveis para manter o esforço simplesmente se
esgotam. E essa parece ser a vantagem de trocar a duração pela
intensidade. Para o pesquisador Arthur Weltman, da Universidade de
Virgínia, um dos responsáveis pelo estudo, a explicação para o efeito
emagrecedor do exercício curto e intenso está no período de recuperação.
“Não devemos levar em conta apenas as calorias efetivamente gastas
durante o exercício”, diz Weltman. “Quando o exercício é intenso, o
corpo precisa de muitas calorias para se recuperar. É nesse momento de
recuperação que ele queima mais gordura.” Um dos responsáveis por isso
parece ser o hormônio de crescimento, que estimula a queima de gordura e
cuja produção é aumentada pelo esforço físico. Quanto mais intenso o
exercício, mais hormônio do crescimento é liberado. Quando o exercício é
moderado, quando não “perturba” o organismo, explica o pesquisador, a
recuperação não requer tanta energia.

Foi preciso que Terezinha de Jesus de Oliveira perturbasse muito seu
sistema energético para perder 13 quilos em dez semanas. Até então, ela
fazia ginástica leve, sem resultados. “Eu fazia as aulas sem suar muito.
Se ficasse um pouco cansada, já estava bom”, diz. O quadro mudou quando
um professor a convenceu a participar de um programa especial de
emagrecimento. Ela teve de suar para valer em circuitos de 30 minutos
(metade do que duravam as aulas que costumava frequentar) que
intercalavam ciclos de 3 minutos de exercícios aeróbicos com musculação e
ginástica. O revezamento mantinha a frequência cardíaca sempre alta.
“Era corrido, rápido e intenso”, diz Terezinha. “Eu saía de lá achando
que não voltaria, mas acabei gostando por causa dos resultados. Saí da
zona de conforto.”
Alguns treinadores apostam no desconforto como parâmetro para suas
aulas. Segundo o personal trainer José Alexandre s Filho, seus alunos
frequentemente são levados a sentir “o coração batendo na traqueia”. “É
assim que a gente prepara para uma oxigenação melhor”, diz José
Alexandre. Para Julio Cezar Papeschi, dono de uma academia na Zona Norte
de São Paulo, as pessoas às vezes vomitam de exaustão e, claro, nem
todos se adaptam. Mas a ideia de perder o dobro do peso na metade do
tempo tem apelo numa cidade onde sobram tentações calóricas e faltam
horas nos dias de todo mundo. “Intensidade é a palavra do momento”, diz o
empresário e professor de educação física. “Os alunos chegam aqui com
uma cultura de pouco esforço, mas muitos mudam.”
Antes de se aventurar no mundo dos elevados batimentos cardíacos é
necessário consultar um médico e avaliar, por meio de exames, o que sua
saúde é capaz de suportar. O indicado é começar devagar e intensificar o
treino algumas semanas depois, quando o corpo estiver condicionado.
Carlos Eduardo Negrão, médico do Instituto do Coração da Universidade de
São Paulo e especialista em fisiologia do exercício, duvida que
pacientes obesos aceitem exercícios mais difíceis. “Já é difícil
fazê-los aderir ao exercício moderado”, diz ele. Até que novos estudos
confirmem a eficácia do exercício intenso, ele prefere continuar usando
os de longa duração com seus pacientes. Para Claudia Forjaz, professora
da Escola de Educação Física da USP e responsável pela área de atividade
física da Sociedade Brasileira de Hipertensão, é provável que o treino
intenso funcione para as pessoas saudáveis, mas é preciso cautela com
quem sofre de pressão alta ou insuficiência cardíaca. “Ainda não sabemos
o que acontece no longo prazo”, diz ela. “A ciência não estudou todos
os riscos.”
Fonte: Revista Época.com